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Wednesday, September 10, 2008

Simbiose dos Corpos

A preparação do chocolate para moldagem nas múltiplas formas de bombons que nos são tão apelativas, é relativamente simples, mas requer mãos sábias e olho de mestre.

De entre as várias fases do processo, o procedimento básico e determinante é a “temperagem” do chocolate. A “temperagem” não é mais que elevar a temperatura do chocolate ao ponto deste derreter, e resfriá-lo naturalmente á temperatura da sua essência. Aplico aqui a palavra “essência” porque cada chocolate tem a sua temperatura certa, e essa temperatura é determinada pela essência do chocolate, da sua natureza, da sua personalidade. E é essa temperatura, a única que lhe confere uma perfeita harmonia entre todos os seus compostos, resultando num produto perfeito e apelativo, quer visual quer gustativo.

Neste processo, o chocolate não deverá ser aquecido a temperaturas demasiado elevadas. A diferença entre o seu ponto de fusão e o aniquilamento das suas mais frágeis e suaves fragrâncias, aquelas que lhe conferem a sua magnitude, é ténue. Não convêm sobreaquecer.

O processo de resfriamento, por outro lado, não se limita ao deixar baixar a temperatura naturalmente. È necessário mexer e misturar todo o chocolate, envolvendo-o e revolvendo-o lentamente, até que este atinja a sua temperatura essencial. Só nesse momento o chocolate está pronto para a moldagem.

Adicionalmente, a refrigeração do chocolate, assim como o seu resfriamento rápido, também destroem a perfeita harmonia dos compostos criada pela temperagem.

É um processo que requer dedicação, tempo, sabedoria q.b., e a dose certa de paixão.

No fim, termina-se com um chocolate perfeitamente temperado, de aromas complexos e subtis, de um sabor de provocar um verdadeiro êxtase.

O chocolate, quando dignamente obtido desde a Theobroma até à delícia final, é uma concentração de sabores e aromas complexos. O chocolate torna-se majestoso pelas suas qualidades e características, e ganha personalidade.

Os nossos sentimentos são assim também, complexos, recheados de subtilezas, de nuances, de pequeníssimos detalhes. Os nossos sentimentos requerem mentes sábias e abertas, olhos atentos, e corações apaixonados.

Não adianta misturá-los e revolvê-los de qualquer maneira, incendiá-los com relações sem sentido ou resfriá-los com doses de indiferença. O resultado final será sempre pobre, triste e de muito mau sabor, e por vezes repugnante.

É necessário nutri-los, compreender a sua natureza, apreender a sua essência. É preciso apanhar-lhes o sentido e deslindar os seus mistérios. Só assim se consegue determinar a sua temperatura certa, aquela que irá permitir uma perfeita simbiose entre os corpos.

Os corpos, quando se juntam, resultam num sem número de sensações. O objectivo é ter sempre boas sensações, preferencialmente arrebatadoras, daquelas que nos elevam a um patamar superior e nos fazem esquecer até quem somos. Mas não é isso que acontece na generalidade dos casos. Com alguma sorte, passamos momentos fantásticos, por vezes bastante enérgicos, mas globalmente bons. Normalmente, são momentos razoáveis, muitas vezes indiferentes, e algumas vezes desprezíveis.

Isso resulta de uma incorrecta “temperagem” dos sentimentos, e da sua relação com os nossos sentidos. A essência dos sentimentos não foi devidamente determinada, e todo o processo resultou num momento desligado, incompleto, inapropriado, desconcertado, desconexo, desencontrado.

A simbiose dos corpos só resulta de uma perfeita temperagem dos sentimentos e da sua coordenação com os nossos sentidos. Não importa que essa simbiose seja pontual ou definitiva. Essa simbiose só tem o sentimento de si se for devidamente temperada, tal como chocolate.