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Saturday, December 27, 2008

Borboletas

As borboletas são inspiradoras.

Podem ser bonitas, feias, ou nem por isso esteticamente relevantes. Podem desencadear espanto, admiração, alegria ou simplesmente uma agradável sensação de leveza e harmonia.

Os gregos da antiguidade acreditavam que a alma de uma pessoa, que abandonava o corpo após a morte, se tornava numa borboleta.

As borboletas são sinónimo de várias situações, sinónimo de mudança pela sua metamorfose, de feminilidade pela sua aparente fragilidade (e isto porque, culturalmente, quer se goste ou não, concorde ou discorde, a fragilidade ainda se encontra intimamente ligada à mulher), sinónimo também de sensibilidade pela sua leveza e forma, de beleza pela sua combinação de cores, tons e formas gráficas muitas vezes absolutamente incríveis...

A minha favorita continua a ser a borboleta azul, da América latina central. Não sendo preenchida de glamour com panóplias de cores e desenhos vários, tem um tom azul hipnotizante, brilhante, e erradia algo de absolutamente fantástico e misterioso. É enorme, para o que estamos habituados a ver numa borboleta, e vê-la ao vivo no seu habitat natural foi uma experiência com uma sensação bastante tranquilizadora. E nunca encontrei uma fotografia que lhe fizesse justiça.

No entanto, julgo que o aspecto mais relevante numa borboleta é a sua total metamorfose, e todas as etapas que passa ao longo da sua vida. A borboleta passa por quatro estágios, desde o ovo, à larva, a pupa (ou casulo) e a fase adulta. Na passagem por estas quatro fases a borboleta tem hábitos, formas e dietas totalmente diferentes. O seu ciclo de vida pode ser desde um mês até um ano, consoante as espécies. E quanto à fragilidade, esta pode viajar por mais de 3.000 km sem parar, com todas as contrariedades meteorológicas já conhecidas.

A metamorfose é a inspiração mais relevante na minha opinião, a mais significativa, a que mais nos move e atrai. É a demonstração de mudança de um estágio para outro, seja ele qual for, psicológico ou físico, profissional ou pessoal, culminando em algo absolutamente belo e complexo ao mesmo tempo, mas de uma simplicidade contraditória. E nós, como seres humanos pensadores (ou supostamente) tendemos a usar de metáforas para descrevermos ou exemplificarmos a nossa própria necessidade, ou desejo, de mudança, através das mudanças que presenciamos no mundo que nos circunda.

E a sensação de liberdade e harmonia que esta mudança induz, é a mais cativante...


de: Raphael Ibanez de Garayo

Nota: quem não conseguir ver aqui, dirija-se a http://www.raphaelibanez.com/
Basta escolher a opção "Short Films/Doc", e depois a segunda imagem da primeira fila.

Tuesday, September 9, 2008

Jeanette - Beleza de um Encanto

O que é a beleza?

Será a beleza algo estritamente estético, ou o resultado de um estado de espírito?
Será a beleza puramente física, ou puramente psicológica?
Em qualquer dos casos, em que medida e forma se define a beleza?
E de que forma se estabelece a beleza entre os sexos, beleza masculina vs. beleza feminina?
Em que pontos são convergentes e divergentes?

Beleza -
algo que pela qual nos deixamos atraír (e, por vezes, traír) e pela qual nos deixamos escravizar.
Beleza - qualidade do que é lindo; qualidade do que é belo; formosura; bela mulher; coisa bela; anéis de cabelo descaídos para as faces.
Beleza - pela qual estabelecemos estereótipos, preconceitos, conceitos e virtudes.
Beleza - a traição dos sentidos.
Beleza, segundo Jeanette!

Para Joana Vasconcelos (artista plástica contemporânea portuguesa) a beleza é um sistema equilibrado com algum ruído.
Esta noção de beleza é, na minha opinião, genial.

Quando Vinicius de Moraes afirmou que “beleza é fundamental” não alinhava, com certeza, com as complexas implicações do conceito de beleza em termos de saúde, felicidade e qualidade de vida.

Beleza é uma percepção individual caracterizada normalmente pelo que é agradável aos sentidos. Esta percepção depende do contexto e do universo cognitivo do indivíduo que a observa. Através da história da humanidade, a relação com a beleza tem sido frequentemente religiosa ou mística e transcendente, logo, a beleza foi considerada muitas vezes como "aquilo que se aproxima da Divindade".

Também podemos considerar que beleza é uma unidade dentro da variedade, unidade essa que deve ser a harmonia da paz. A palavra beleza era utilizada originalmente para denominar exactidão, precisão, e eventualmente a palavra adquiriu o significado de simetria. Beleza é aquilo que vemos e que podemos interpretar de modos diferentes.

É difícil expressar em palavras o que é o "belo". Mas pode-se afirmar que a beleza é um conjunto de elementos que resultam naquilo que se considera belo. Uma das expressões utilizadas antigamente para definir a beleza feminina: "eram mulheres agradáveis aos olhos" ou "são mulheres formosas à vista". Mas esse conceito mudava consoante o "espaço" ao qual estivesse associado.

Para Leonardo Da Vinci, o modelo de beleza foi traduzido pelo quadro Mona Lisa. Para ele, e para o pensamento da época, a mulher bela tinha que preencher, literalmente, o seu 'campo de visão', ou seja, as mulheres tinham que ser 'rechonchudinhas' e trajando muitas roupas, por pressão moral.

Mas o conceito de beleza mudou ao longo dos tempos. Conhecidas, e ultimamente bastante criticadas, são as linhas actuais quase anoréxicas, pele sempre bronzeada, sem marcas, que não tém qualquer fundamento saudável nem moral, mas somente económico. Outra linha são os corpos excessivamente trabalhados por cirurgiões estéticos, produzindo corpos sem barriga, sem flacidez, com peitos XL, bem firmes, lábios carnudos, narizes perfeitos, pele esticada, sem expressões, traseiros bem medidos, etc.

Portanto, a beleza transcende a questão espacial, e entra numa dimensão temporal. Beleza é algo relativamente ligada ao tempo e ao espaço. O conceito de beleza tem variações através do contexto (época, espaço, etc).

Para alguns, a beleza não inclui somente forma física, mas também o modo de pensar de cada individuo, a maturidade, os sentimentos, o comportamento, o modo de agir em geral.

É também gerador de um certo conflito entre as pessoas, em busca do melhor, do superior. Isso também gera preconceitos, porque divide a sociedade entre "bonitos" e "feios". Na vida, na sociedade, na busca de emprego, nos relacionamentos, a “boa aparência” cada vez mais abre vantagem. Ainda que tenhamos aprendido que o que importa é a essência, na realidade a aparência, leia-se beleza, conta mais forte. E entre a percepção da aparência (imediata) e a avaliação da essência (não imediata) decorre um espaço de tempo que favorece a beleza e sobre o qual se edifica a industria da estética.

Mas o que nunca se altera são os fundamentos básicos da beleza.

Apesar de algumas alterações quanto ao gosto pessoal, a ciência mostra que há um padrão de beleza humana universal e inalterável ao longo tempo. Esse padrão é instintivo e apenas sofre pequenas alterações sob a influência da cultura, mas o que foge radicalmente desse padrão nunca foi e nunca será considerado belo, por mais que a cultura se altere. O único modo desse padrão se alterar é se a própria estrutura biológica do homem se alterar, modificando os seus instintos milenares.

A beleza também poderia ser vista como uma característica sexual secundária, surgida evolutivamente como forma de indicar ao sexo oposto que um determinado indivíduo está apto para se reproduzir e gerar filhos geneticamente saudáveis. Na sociedade moderna, a beleza é um sinónimo de sucesso: regra geral, as pessoas são muito mais atenciosas (e mesmo educadas) com indivíduos bonitos do que com os menos privilegiados nesse aspecto. Por isso, os modelos atraentes são amplamente empregados na publicidade.

Existem testes científicos que visam a definição do conceito de beleza, que passam, por exemplo, por pedir a um indivíduo que classifique uma série de fotos de desconhecidos quanto à sua beleza.

Testes como este indicam que rostos com aspecto mediano tendem a ser considerados mais atraentes do que aqueles que apresentam alguma característica muito distintiva (como um nariz ou lábios muito proeminentes, por exemplo). Da mesma forma, uma pele lisa, sem acne ou barba, também aumenta a probabilidade de um individuo ser considerado belo.

Mas isso está longe de ser um critério amplamente aceite, como indica um estudo da equipa dirigida pelo psicólogo David Perrett, da Universidade de Saint Andrews, na Escócia. Num trabalho de 1994 na revista Nature, eles mostraram que características faciais exageradas em relação à média da população podem contribuir para que um indivíduo seja considerado belo. Um exemplo disso são os grossos lábios da atriz Angelina Jolie.

Mas existem outros estudos. Um, realizado em 1999 por
pesquisadores da Universidade de Saint Andrews e liderados pelo psicólogo Ian Penton-Voak, utilizou programas de computador para adicionar atributos considerados femininos em fotos de rostos masculinos.

O resultado?
As mulheres preferem homens com características faciais associadas com o sexo masculino (como rostos mais quadrados, sobrancelhas mais pesadas e retas e lábios mais finos) durante o período fértil de seu ciclo menstrual. Já em outros períodos, as mesmas mulheres tendem a considerar mais atraentes homens com rostos com características mais femininas.
Mais à frente, o estudo indica que
o odor dos hormônios sexuais masculinos é desagradável para as mulheres, excepto durante o período em que elas estão férteis.

Estudos diferentes podem apontar para conclusões diferentes. Existe uma ampla gama de factores que podem influenciar os resultados finais. Mas as conclusões, sejam de que estudo forem, não deixam de ser curiosas.


Em inicios de Agosto de 1985, tinha eu 14 anos, viajei para o Lesotho, um pequenho país no seio da África do Sul. Um país do terceiro mundo, com cerca de um milhão e meio de habitantes. A casa onde vivi durante os três anos que se seguiram tinha uma empregada doméstica chamada Jeanette, que trabalhava de 2ª a Sábado. Chegava a casa antes do pequeno almoço, que era por volta das 7 da manhã, e saía por volta das 17 horas da tarde (se não me falha a memória).

Quando conheci a Jeanette achei-a...bem, feia!, porém simpática. A Jeanette tinha quarenta e tal anos, não sei precisar se mais ou menos de 45, e tinha uma filha adolescente (bonitinha). O corpo era razoável (desculpem-me as leitoras deste meu sentido mais frio e machista), mas nada de especial. No entanto, tinha um peito de fazer inveja a muitas mulheres de 20 anos. Não eram grandes, nem pequenos, eram bem medidos, e bem redondos, pelo menos quanto o sotien e o vestido deixavam delinear. Mas a cara da Jeanette era feia. Uma cara muito pouco estética, demasiado marcada pelas expressões e dificuldades da vida. Fazia-me lembrar a rede de uma raquete de ténis, mas com buracos
bem mais largos. Aquela mulher era feia, e pronto! Foi o meu pensamento quando a conheci. Mas simpática!

Ao longo dos dias em que convivi com ela (pequeno almoço, almoço e lanche) fui conhecendo a sua maneira de ser. Confirmou-se a sua simpatia, mas também era bem disposta, muito divertida, afável, carinhosa e preocupada. Era fanática por futebol (mas mesmo, mesmo fanática!...ao extremo...e quando descobri este lado dela, de vez em quando ligava uma estação de rádio com um jogo qualquer na África do Sul que procurava ao acaso...e aquela mulher transformava-se... ...os gestos, as expressões, a vibração com o jogo, os saltos, a tensão dos momentos de golo, e eu ria-me, e ela ria-se de volta para mim, e das figuras que fazia). Levava a sua religião muito a sério (não me recordo qual era, mas não podia comer carne de porco, de entre outras coisas. Por vezes discutia com ela sobre isso, mas em vão...não só não tinha argumentos suficientes como estava a lutar contra uma fé determinada). Era uma pessoa perspicaz para algumas coisas, mas genericamente ingénua para muitas outras.

Ao fim de um tempo, muito pouco tempo, olhei para ela e achei-a... ...bonita. Bonita?????! Estás louco???
Nessa altura o conceito de beleza bateu-me na cabeça que nem martelo numa bigorna!
Sim...bonita! Não sabia explicar mas já não via aquela rede de raquete, aquela cara feia com expressões vincadas. A Jeanette tornou-se bonita aos meus olhos!

Antes de mais, quero esclarecer uma coisa...não houve, em momento algum, qualquer espécie de factor erótico por detrás desta conclusão de beleza. Porque é que digo isto? porque é possível considerar alguém bonito fora dessa dimensão. Considerei-a bonita como pessoa, e não como possivel ou imaginária personagem erótica, e essa minha consideração de beleza deturpou de forma positiva a minha visão física do corpo.

Infelizmente, não fiquei com nenhuma fotografia dela para memória futura. Via-a a última vez há 20 anos (1 de Agosto de 1988), que foi quando retornei a Portugal. Mas lembro-me dela com saudade, e com beleza, porque marcou a minha forma de interpretar a beleza em geral.

Obviamente, já tinha passado por experiências semelhantes antes de a conhecer. Mas nunca tinham sido tão marcantes e, por isso, passaram-me sempre despercebidas. Eu achava alguém bonito ou feio e pronto, não questionava o porquê.

O conceito de beleza que tenho hoje é variável, mas é indubitavelmente influenciado pelo meu conhecimento da pessoa como ser social e psicológico, e menos como pessoa física. Não tem nada a haver com a Jeanette, ela foi simplesmente um despertar para outras evidências bem mais importantes na minha avaliação de beleza - a alma da pessoa.

Não sou nenhum santinho...a primeira coisa que avalio em alguém é o aspecto físico e a sua aparência. É escusado tentar não o fazer. É mais forte que eu. Qualquer "boazona" (e aqui o conceito de boazona é muito alargado) que se cruze por mim na rua pode-me fazer virar a cabeça...confesso-o!

Os primeiros atributos que me atraiem numa mulher são quase sempre físicos.
Pode ser qualquer coisa, ou um conjunto de coisas.
Pode ser...
...magra ou gorda,
...alta ou baixa,
...loira, morena ou ruiva,
...branca, negra, mulata, amarela...
...etc.

Mas pode haver qualquer pormenor físico que me chama a atenção...
...tom de voz,
...olhos,
...mãos,
...cabelos,
...pescoço,
...peito,
...braços,
...barriga,
...pernas,
...tornozelos,
...pés,
...ouvidos,
...aqueles pequenos cantos,
...determinadas curvas,
...pormenores por vezes dissimulados,
...uma veia num determinado sitio, ...
...um sem número de pormenores, ou conjunto deles.

Logo de seguida, quase de imediato, vem uma avaliação superficial quanto aos...
...gestos,
...olhares,
...maneira de falar,
...andar,
...vestir...
...e depois as actividades,
...os interesses,
...o modo como encara a vida, as pessoas, os incidentes,
...as alegrias,
...as tristezas...
...mais tarde começa um conhecimento mais profundo...
...da sua forma de pensar,
...de agir,
...de estar só,
...de estar acompanhada,
...os projectos de vida,
...e não tarda nada, o conceito de beleza dessa pessoa altera-se completamente face ao conceito inicial...
...tornando-a mais bonita,
...ou mais feia,
...ou simplesmente indesejável,
...por vezes até desprezível (mesmo que tenha um corpão de coelhinha playboy, não que este seja o meu estereotipo ideal).

Eu sei que, dando tempo ao tempo, à convivência com essa pessoa, a visão que faço dela em termos de beleza quando a conheço pode mudar drasticamente, consoante a sua personalidade e modo de estar na vida.

Aprendi isso com a Jeanette.
Tenho saudades da Jeanette...pergunto-me como estará hoje, e se ainda vibra pelo futebol como dantes.
Mas tenho a certeza de que continua bela, porque essa beleza não tem idade...é intemporal!


Algumas fontes/créditos:

Joana Vasconcelos - http://tsf.sapo.pt/podcast/files/pet_20080808.mp3
Dicionários Priberam
Wikipedia
Insituto Ch - Ciência Hoje - http://cienciahoje.uol.com.br/91845
Tommaso Psicologia - http://tommaso.psc.br/html/estetc/estetc3.htm
Didáctiva Editora - A Arte de Pensar - http://aartedepensar.com/leit_gosto.html